LINDA HISTÓRIA DESENVOLVIDA ATRAVÉS DAS FERROVIAS...

 Comissão de Revisão Histórica de Dourados

MEMÓRIA DE FERRO.
Lembro como se fosse hoje, 1973, o ano em que o trem se tornou meu portal para o mundo. Papai chegou em casa com aquela notícia que mudaria tudo: "Filho, vamos para São Paulo!" Para um garoto que morava em Dourados, cidade do interior de Mato Grosso, aquilo era como ganhar um bilhete para a lua. Papai fazia frequentemente viagem para São Paulo, para comprar papel, borracha para carimbo, tinta, materiais para a sua Tipografia.
Saímos de Dourados num ônibus da Viação Queiroz que parecia uma lata de sardinha, sacolejando até Campo Grande. As pessoas levavam de tudo: galinhas cacarejando, cachorros latindo, cabras e até uma leitoa amarrada no bagageiro. Malas e mais malas se amontoavam nos corredores, um verdadeiro festival de cheiros e sons. Antigamente, as viagens eram assim, uma aventura em si.
Chegamos em Campo Grande e fomos direto para a estação, um formigueiro de gente, cheirava a café fresco e fumaça de cigarro. Depois de esperar o que me pareceu séculos, finalmente ele chegou: o trem, uma serpente de ferro que me engoliu com seus vagões imensos. Papai me ergueu e me jogou pela janela, um salto arriscado para garantir um lugarzinho na segunda classe.
O apito do trem, um grito rouco, me fez vibrar. E quando ele começou a se mover, um balanço ritmado, senti como se o mundo se movesse comigo. A paisagem lá fora, um filme em preto e branco, de noite não se via muita coisa, um mundo inteiro até chegar em Três Lagoas, o relógio imponente deu para ver da janela do trem, passamos o Rio Paraná a noite, mas de manhã, olhava a janela que desfilava com seus campos e cidades minúsculas. Dentro do vagão, um festival de aromas e sons: vendedores ambulantes gritando "olha a pinga, o café, o pão com manteiga, conhaque, coxinha, pingado, pipoca, jornal, revista, Sortido! Olha o Sortido! Bife a Cavalo! (ficava pensando quero não)". Passageiros reclamando dos preços exorbitantes, crianças correndo pelos corredores, e o cheiro forte de cigarro misturado com o aroma do café fresco.
A cidade de Araçatuba me impressionou, com seus prédios altos, como se fossem arranha-céus no meio do sertão. Mas a noite chegou, e o cansaço me venceu. O banco duro, o barulho constante, nada disso me impediu de sonhar com as aventuras que me aguardavam.
Em Bauru, trocamos de trem. Outra serpente, agora com destino à Estação da Luz, em São Paulo. A viagem continuou, com suas paisagens e personagens peculiares, mas a magia do primeiro trem já havia me conquistado.
E então, aconteceu. No meio da viagem, um choro cortou o ar. Uma menina, da minha idade, uns nove anos, soluçava alto. Tinha perdido um colar, presente do avô, uma lembrança preciosa. O vagão virou um formigueiro, todos procurando, lanternas acesas, gente vasculhando embaixo dos bancos, em meio a malas e cestas de piquenique. Eu, com meus olhos de coruja, me infiltrei na busca.
O trem sacolejava, e a cada curva, um novo pedaço do chão era revelado. De repente, um brilho discreto, quase escondido entre duas malas. Era o colar, uma corrente fina com um pingente de pedra azul. A menina, ao ver, pulou em mim num abraço apertado, aliviada e grata.
Quando chegamos à Estação da Luz, parecia um palco de teatro. A menina contou a todos sobre o colar encontrado, e os passageiros me aplaudiram como se eu fosse um herói. Papai, com um sorriso largo, me deu um tapinha nas costas. E eu, com a barriga roncando, pedi a recompensa que merecia: um X-Salada gigante e uma Coca-Cola bem gelada.
E foi assim, o dia em que o trem me levou para São Paulo, se tornou uma história para contar e recontar, uma aventura que me ensinou que até nos lugares mais improváveis, a sorte pode nos encontrar, e que um bom lanche pode ser a melhor recompensa do mundo.
Carlos Magno Amarilha
In: Crônica do Dia. "Memória de Ferro".
Prelo.
Fonte/Imagem: crédito: campograndenews.com.br ,
26/08/2021 - Foto, Roberto Higa.


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