Certa vez, um homem sábio mostrou-me um rio, e disse: “Sabe, gosto dele, porque é imenso e belo, tem muitos peixes e é eterno”... Também admirei aquela beleza sem igual, mas como não sabia nadar, mal tive coragem de tocar naquelas águas límpidas que corriam serenamente, como se não quisessem perturbar o “altivo” canto dos pássaros; Os pobres “empenadinhos” já eram bastante incomodados pelos carvoeiros que estavam em ação naquela região. Diga alguma coisa, murmurou-me o sábio. Então as
palavras vieram à minha boca como que num passe de mágica:
“É o rio mais lindo que já vi! É majestoso, mas não
gostaria de me afogar nele”. (Mal podia imaginar, naquele tempo, que o sábio
não previa a verdade; que o rio não seria eterno e que eu não poderia me afogar
nele, se ali regressasse alguns anos depois)...
Triste, o velho amigo me procurou um dia e disse-me:
“Se
atravessar aquele rio hoje, mal irá molhar os pés; não porque você cresceu, mas
porque meu querido rio morreu”...
Onde estiver agora aquele velho sábio, quero lhe
contar um segredo: Eu não amava tanto aquele rio, porque tinha medo daquele
gigantesco mar de águas. Mas eu gostava imensamente de um regato, que ficava
bem pertinho da cidade. Lá, eu não poderia me afogar e em pouco tempo meus
amigos e eu pescávamos centenas de piabas. A “colheita” era certa, tanto com a
utilização da tradicional vara de pesca, quanto com sacas de linho, peneiras,
etc.
O pior, meu inesquecível amigo, é que o regato se
transformou num minúsculo “filete de água”, que corre triste e solitário... Uma
vez ou outra, uma pequetita piabinha saltita, dá uma espiada tímida e
desaparece rapidamente. Há, lá por aqueles lados conseguiram preservar o
“Matão”, parcialmente, e não como merecia sua Majestade, “a Natureza”. O
progresso custou muito caro. Os canarinhos amarelos foram embora, as frondosas
árvores continuam sendo devastadas e nas poucas que restam, os cipós continuam
entrelaçados, em sinal de protesto. Ambos perdemos alguma coisa. Nem meus
filhos, nem seus netos terão um lugar tão perto para pescar, ou mesmo se
balançar como Tarzan em resistentes e longos cipós. “Velho Matão”, que hoje
agoniza, foi a mata mais bonita que já existiu no nosso recanto amado!
Nota: Essa crônica foi escrita há muitos anos! *“Matão”, (bem reduzido, mas ainda sobrevive) localizado na extensão da Avenida Dom Almir Marques, nas proximidades do Enxó
Clube. E próximo, onde havia o Regato, tem hoje um Loteamento; O Rio é o Santo Antônio, hoje praticamente um pequeno córrego...
